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publicado em
29/09/2026
atualizado em
29/09/2026
às 18:03
por:
Século XXI
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Existe um limite para o avanço da tecnologia? E o que isso pode ensinar às empresas

Acreditamos que sempre haverá uma nova tecnologia capaz de resolver o próximo problema. Mas e se o desenvolvimento tecnológico também tiver limites? Uma reflexão que começa no universo e chega às decisões que empresas tomam todos os dias.

Durante décadas, aprendemos a olhar para a tecnologia como uma trajetória praticamente infinita. Computadores ficaram menores e mais potentes, a internet transformou a comunicação, smartphones colocaram inúmeras ferramentas na palma da mão, a inteligência artificial passou a realizar tarefas que, até pouco tempo atrás, pareciam exclusivas dos seres humanos.

Diante de tantos avanços, é fácil acreditar que sempre haverá uma próxima descoberta capaz de superar os limites atuais. Mas será mesmo?

Essa é a provocação apresentada por Antonio Gelis Filho no artigo “Existe um limite universal para o desenvolvimento tecnológico?”, publicado pela FGV. O autor parte de uma pergunta sobre o universo para discutir uma questão muito mais próxima da nossa realidade: e se a tecnologia não puder avançar indefinidamente?

Uma pergunta que começou olhando para o espaço

Em 1950, o físico Enrico Fermi levantou uma questão que se tornaria conhecida como paradoxo de Fermi. Se o universo possui bilhões de estrelas e uma história de bilhões de anos, por que nunca encontramos evidências claras de civilizações extraterrestres tecnologicamente avançadas?

Em trabalho acadêmico publicado em 2024 na revista Futures, Gelis Filho propôs uma possível resposta: a existência de um Limite Universal ao Desenvolvimento Tecnológico ou Universal Limit to Technological Development (ULTD).

A hipótese sugere que nenhuma civilização conseguiria avançar tecnologicamente de maneira ilimitada. Em algum momento, todas encontrariam barreiras físicas, energéticas ou relacionadas à própria complexidade necessária para continuar avançando. É uma hipótese, não uma certeza.

Mas ela coloca em xeque uma crença bastante presente na nossa sociedade: a ideia que a tecnologia sempre encontrará uma saída.

E se cada novo avanço custar mais do que o anterior?

O desenvolvimento tecnológico não acontece sem recursos. Novas descobertas exigem pesquisa, infraestrutura, profissionais altamente especializados, energia, investimentos e estruturas cada vez mais complexas.

O argumento apresentado pelo autor é que o desenvolvimento tecnológico pode seguir uma curva em S: primeiro acelera, depois amadurece e, em determinado momento, aproxima-se de um platô.

Os avanços mais acessíveis acontecem primeiro e conforme o conhecimento evolui, alcançar a próxima descoberta pode exigir um esforço cada vez maior. Em outras palavras, não se trata necessariamente de falta de inteligência ou criatividade.

Pode chegar um momento em que o custo para dar o próximo passo seja maior do que os recursos disponíveis para alcançá-lo. E é justamente aqui que uma discussão sobre os limites do universo começa a ficar bastante familiar para quem trabalha com gestão.

Quanto custa manter a complexidade que criamos?

Para construir seu argumento, Gelis Filho também recorre ao trabalho do arqueólogo Joseph Tainter, autor de The Collapse of Complex Societies.

Tainter estudou o colapso de sociedades complexas e mostrou como civilizações tendem a responder aos problemas adicionando novas camadas de complexidade. Com o tempo, porém, os recursos necessários para sustentar essas estruturas podem crescer enquanto os benefícios obtidos diminuem. Essa lógica não está tão distante das organizações.

Empresas crescem e novos processos são criados, mais departamentos aparecem, novos sistemas são implementados e a governança ganha novas camadas. Indicadores, reuniões, aprovações e ferramentas são adicionados para resolver problemas que surgem ao longo do caminho, cada decisão pode fazer sentido isoladamente.

O problema aparece quando a estrutura criada para tornar a empresa mais eficiente começa a consumir uma parcela cada vez maior dos próprios recursos. A complexidade que um dia ajudou a resolver problemas pode, aos poucos, tornar-se parte deles.

Nem toda inovação significa adicionar algo novo

Existe uma ideia particularmente interessante nessa discussão para quem lidera organizações. Estamos acostumados a relacionar inovação com acréscimo, uma nova tecnologia, um novo sistema, uma nova ferramenta, um novo processo.

Mas, se recursos são limitados e a complexidade tem um custo, inovar também pode significar simplificar. Antes de implementar uma nova solução, talvez seja necessário entender se ela realmente resolve um problema relevante ou apenas acrescenta outra camada à estrutura existente. A pergunta deixa de ser apenas:

“Qual é a próxima tecnologia que podemos adotar?”

E passa a incluir:

“Qual problema estamos tentando resolver com ela?”

A tecnologia não elimina a necessidade de estratégia

Essa reflexão ganha ainda mais importância em um momento no qual empresas convivem com inteligência artificial, automação, análise de dados e inúmeras ferramentas que prometem aumentar produtividade e eficiência.

Ter acesso à tecnologia não significa, automaticamente, gerar valor com ela. Escolher onde investir, quais soluções realmente fazem sentido e quais recursos devem ser preservados continua exigindo julgamento humano e visão estratégica.

O próprio artigo da FGV amplia essa discussão para a alocação responsável de recursos naturais, humanos e financeiros. Se os recursos necessários para sustentar níveis crescentes de complexidade não são infinitos, administrá-los bem deixa de ser apenas uma questão de eficiência. Torna-se uma questão de sustentabilidade.

E se não existir sempre um “próximo lugar”?

A reflexão de Gelis Filho termina voltando ao ponto em que começou: o universo. Se realmente houver limites físicos capazes de impedir que civilizações avancem indefinidamente ou se espalhem pelo cosmos, a ideia de que sempre poderemos encontrar outro território, outra fonte de recursos ou outra solução tecnológica torna-se muito mais frágil.

Nesse cenário, cuidar dos recursos disponíveis deixa de ser apenas uma escolha ética e passa a ser uma decisão racional de sobrevivência. É uma hipótese sobre civilizações, mas também é uma provocação bastante atual para empresas.

Porque crescer não significa apenas descobrir como fazer mais, em algum momento, também significa aprender a fazer melhor com aquilo que temos.

Vale uma reflexão

Quantas vezes uma nova tecnologia é adotada porque realmente resolve um problema e quantas vezes porque parece necessário acompanhar o mercado?

Sua empresa está usando a inovação para simplificar ou criando novas camadas de complexidade?

E se os recursos forem mais limitados do que imaginamos, estamos preparados para decidir onde realmente vale a pena investi-los?

Talvez o desenvolvimento não dependa apenas da nossa capacidade de criar a próxima grande tecnologia. Pode depender também da nossa capacidade de administrar com inteligência aquilo que já conseguimos criar.

Seja FGV!

Referência: https://portal.fgv.br/artigos/existe-um-limite-universal-para-o-desenvolvimento-tecnologico?nid=24365

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