A IA amplia as possibilidades de aprendizagem, mas também traz um novo desafio para professores, instituições e alunos: garantir que a tecnologia seja uma ferramenta para o conhecimento, e não um substituto do pensamento.
A inteligência artificial chegou definitivamente às salas de aula. Afinal, tudo fica mais fácil com ela, já que em poucos segundos é possível resumir textos, organizar ideias, responder perguntas e até produzir trabalhos completos. Para estudantes, isso representa acesso a recursos que seriam inimagináveis há poucos anos. Para professores e instituições de ensino, abre novas possibilidades, mas também levanta uma série de questionamentos.
Se uma ferramenta pode entregar uma resposta pronta, o que acontece com o processo necessário para chegar até ela?
Essa é uma das reflexões apresentadas pela professora Maísa Cristina Dante Fagundes, da FGV EAESP, no artigo “Indisciplina no Ensino Superior em Tempos de IA: Para Onde Correremos?”. A autora analisa um cenário que começou a se transformar durante a pandemia e ganhou uma nova dimensão com a popularização da inteligência artificial.
A sala de aula mudou depois da pandemia
Antes mesmo da chegada da IA generativa, professores já percebiam mudanças importantes no comportamento dos estudantes. Segundo Maísa Fagundes, a experiência em sala de aula indica uma intensificação dos problemas de atenção e concentração após o período de ensino remoto. A flexibilização dos hábitos de estudo durante a pandemia também tornou mais difícil a readaptação ao ensino presencial.
A autora utiliza uma expressão interessante para explicar o fenômeno: “efeito da tela imaginária”. Mesmo fisicamente presentes, alguns estudantes mantêm comportamentos adquiridos no ambiente remoto, utilizando dispositivos para atividades paralelas ou interagindo como se ainda estivessem do outro lado de uma tela.
Só que esse não é o único fator. A percepção de que determinados conteúdos estão distantes da realidade profissional, regras pouco claras, pressões acadêmicas, questões socioeconômicas e desafios relacionados ao bem-estar emocional também ajudam a tornar o ambiente de aprendizagem mais complexo.
A inteligência artificial acrescentou um novo desafio
É nesse cenário que entra a IA, mas o problema não está simplesmente em utilizá-la. Ferramentas de inteligência artificial podem apoiar pesquisas, ajudar na organização do conhecimento e ampliar possibilidades de aprendizagem. O desafio aparece quando elas deixam de ser apoio e passam a substituir o esforço intelectual do estudante.
A facilidade para produzir textos e realizar tarefas, por exemplo, aumenta as preocupações com plágio e coloca em xeque métodos tradicionais de avaliação. Mas existe uma questão ainda mais profunda: o uso indiscriminado pode criar dependência e comprometer o desenvolvimento da autonomia e do pensamento crítico.
Se a IA pensa, estrutura, argumenta e responde pelo estudante, como avaliar o que ele realmente aprendeu?
Aprender exige esforço intelectual
Essa talvez seja uma das discussões mais importantes provocadas pelo artigo e pela nossa atual sociedade. A inteligência artificial tornou o acesso às respostas extraordinariamente mais fácil, mas educação nunca foi apenas encontrar respostas. Aprender envolve formular hipóteses, cometer erros, interpretar informações, comparar perspectivas, construir argumentos e desenvolver autonomia para chegar às próprias conclusões.
Quando a IA substitui esse percurso, torna-se mais difícil identificar as dificuldades individuais e compreender a evolução real da aprendizagem.
E a consequência pode ultrapassar a formação individual. A autora alerta que a apatia na busca autônoma pelo conhecimento também pode repercutir na produção científica e, consequentemente, no próprio avanço da ciência.
Proibir a IA não parece ser a resposta
Se a tecnologia já faz parte da realidade acadêmica e profissional, simplesmente ignorá-la dificilmente resolverá o problema. O caminho apontado por Maísa passa pela integração consciente da IA ao processo de aprendizagem.
Para os professores, isso significa aproximar os conteúdos de situações reais, trabalhar com metodologias capazes de estimular participação e pensamento crítico, estabelecer regras claras e incorporar a IA como apoio à pesquisa e à produção original.
As instituições também têm responsabilidade nesse processo. Políticas para utilização da IA, capacitação dos professores, atualização dos currículos e inclusão de discussões sobre tecnologia e ética tornam-se cada vez mais necessárias. E existe uma terceira parte dessa relação: o próprio estudante.
O aluno também precisa assumir protagonismo
Nenhuma metodologia ou tecnologia consegue substituir completamente a disposição para aprender. Por isso, Maísa Fagundes destaca a necessidade de incentivar estudantes a desenvolver senso crítico, autodisciplina, participação ativa e capacidade de reconhecer tanto as possibilidades quanto os limites da inteligência artificial.
Essa mudança de postura talvez seja ainda mais importante em um mercado no qual ferramentas inteligentes estarão cada vez mais presentes. Saber utilizar IA será uma competência relevante e quando questioná-la também.
O futuro da educação não precisa escolher entre tecnologia e pensamento
A discussão sobre inteligência artificial no ensino superior não precisa terminar em dois extremos: aceitar qualquer utilização ou simplesmente proibir a tecnologia. Existe um caminho mais interessante entre eles.
A IA pode ajudar a pesquisar, organizar informações, testar possibilidades e ampliar o acesso ao conhecimento. Mas pensamento crítico, interpretação, curiosidade e autonomia continuam sendo parte essencial da formação.
Como defende o artigo da FGV, enfrentar os novos desafios do ensino exige um esforço compartilhado entre professores, instituições e estudantes, combinando ética, engajamento e uso consciente da tecnologia.
Vale uma reflexão
Se uma inteligência artificial consegue entregar uma resposta em segundos, o que precisamos ensinar para que um estudante ainda queira construir a própria resposta?
Estamos preparando profissionais para utilizar novas ferramentas ou também para questioná-las?
E, em um mundo no qual encontrar informação ficou tão fácil, será que a capacidade de pensar por conta própria não se torna ainda mais valiosa?
Talvez o verdadeiro desafio da educação na era da IA não seja decidir quanto espaço a tecnologia deve ocupar, mas garantir que, quanto mais inteligente a tecnologia se torne, mais preparados estejamos para pensar com autonomia.
Seja FGV!
Referência:
https://portal.fgv.br/artigos/indisciplina-no-ensino-superior-em-tempos-de-ia-para-onde-correremos